25 janeiro 2010

Filme "ZUMBILÂNDIA"

Um vírus letal assola todo o planeta e transforma a maioria das pessoas em famintos zumbis. Por tal motivo, os poucos sobreviventes, para se defenderem, se vêem obrigados a procurar um local seguro, evitando assim de serem devorados.

Parece uma sinopse familiar? É... eu sei, mas já adianto que não estou falando de “Diário dos mortos”, nem de “Madrugada dos mortos”, nem “Extermínio”, ou qualquer outro filme do estilo "mais do mesmo", e sim, de “Zumbilândia”!
Com certeza, você deve estar se perguntando: que raio de título infantilóide e bizarro é esse?
Bom, por meio dele, pode-se obviamente prever que a proposta deste filme, apesar de abordar pela milésima vez o corroído tema “mortos-vivos”, não é a mesma a qual estamos acostumados a ver.
Em primeiro lugar: para contornar o desgaste do gênero, a direção optou por inserir na estória uma linha humorística – o melhor exemplo que temos dessa novidade é o divertido “Todo mundo quase morto”.
Por isso, este filme, adequadamente denominado de “zumbilândia”, traz sua significante e necessária contribuição para repaginar o “universo dos zumbis”.

É certo que há cenas fortes e sanguinolentas e toda aquela típica carnificina do gênero, mas vale ressaltar que o clima dos acontecimentos estão sob um camuflado ar infante (nada comprometedor), desviando o filme de qualquer tipo de apelação. Méritos da esforçada direção do iniciante Ruben Fleischer e do empenho de seu engajado elenco.
No entanto, por mais paradoxo que seja, mesmo contendo essa essência ligeiramente juvenil, não o recomendo para os pequenos por ser o mesmo mais pesado do que se espera em suas primeiras tomadas.

A princípio, ambos os roteiristas, Rhett Reese, contando com a cooperação de Paul Wernick – ambos desconhecidos –, desenvolveram a estória para uma suposta série de televisão, em que a primeira metade do filme seria o provável episódio-piloto. Talvez os produtores pressagiaram o êxito do filme, e assim “Zumbilândia” veio direto para as telonas, tornando-se então sucesso de público e crítica nos EUA.
E graças ao seu desenrolar agitado, inovador e suficientemente atrativo, já se escuta rumores sobre suas sequencias (isso mesmo, no plural).

O ator Jesse Eisenberg (“Amaldiçoados”) – eficiente em seu estereótipo de nerd americano – é um dos protagonistas e ao narrar à estória em primeira pessoa dispensa aqui o intrincado e desnecessário cruzamento de informações em se tratando de filmes de terror.
Logo de início, ele apresenta ao espectador suas inúmeras e promissoras regras de sobrevivência, disciplinadamente seguidas por ele, que mostram como se sair ileso de uma infestação de zumbis, momento este em que ele se encontra.
Toda vez que Columbus, o personagem de Jesse, cita uma regra e o momento propício de executá-la, a cena é exemplificada na tela, descrita com direito a título em letras garrafais, rebobine da ação e ótica sob variados ângulos, tudo isso para que todos possam, meticulosamente, entender como funciona os seus elaborados escapes contra os iminentes ataques dos hostis zumbis.

Continuando com o elenco que, diga-se de passagem, é um show à parte, temos o versátil Woody Harelson (“Sete vidas”), encarnando um papel digno de seu perfil: engraçado, cínico, indiferente e destemido; sendo ele o responsável por ajudar involuntariamente Columbus (Jesse Eisenberg).
E para que tudo se torne funcionalmente mais caricato, o paradigma de anti-herói indestrutível que gira em torno do personagem de Harelson é “desvirtuado” quando contemplamos sua obstinação por achar um tipo específico de bolinho recheado, que para ele é mais importante do que aniquilar os perigosos mortos-vivos à sua volta.

Não posso me esquecer das representantes femininas do casting principal, composto por Abigal Breslin ("A pequena Miss Sunshine") e Emma Stone ("Superbad - é hoje").
Por algum tempo eu tive a pequena (já não tão mais) Abigal como superestimada. Após seu papel aqui, posso dizer que o talento dela não é extraordinário, mas merece às honras que já teve.
Já Emma Stone, bonita e carismática, me remeteu aos tempos áureos da carreira de Goldie Hawn, por ser ela uma espécie de versão morena e trinta anos mais jovem da tal.

Um detalhe que também merece ser revelado aqui é a inversão comportamental pela qual os personagens foram definidos.
Normalmente as mulheres em filmes assim colaboram para com os gritos e o pavor das cenas, enquanto os homens tomam as rédeas da situação, encabeçando os momentos cruciais da ação – embora esta seja uma visão antiquada, machista e clichê, que ainda persiste no cinema. Só que em “Zumbilândia”, qualquer homem que se atreva a mexer com a dupla de irmãs Wichita (Emma) e Little Rock (Abigal), se arrependerá.
Elas, por meio de uma bem explorada transposição de personalidade, são bem ordinárias – no bom sentido, claro. E à custa dos personagens de Woody Harelson e Jesse Eisenberg, elas protagonizam os momentos mais sacanas da estória, fazendo por isso, o ingresso valer ainda mais.

Das tantas qualificações, a bastante comentada aparição bem-humorada de Bill Murray tornou o filme ainda mais proveitoso. Ele afirmando seu arrependimento em participar do filme “Garfield”, foi impagável!
Quanto à parte visual do filme, só me resta prosseguir incessantemente com os elogios. A caracterização dos zumbis é precisa, aterradora e sutilmente cômica. A fotografia, esplêndida! A ambientação erma das cidades, super crível. Enfim, está tudo muito bem nivelado a qualidade do roteiro.

A única questão que poderia ser vista como problema neste longa é narrativa que em meados torna-se arrastada, mas por ser por um lacônico período, não é nada que prejudique o filme.
Na verdade, o público acaba entendendo que tudo não passa de uma produção esperta que soube brincar alternativamente com um tema desgastadíssimo, conseguindo também manter a qualidade junto ao enredo, devido ao esmero de toda uma equipe.
Sem mais, o ótimo roteiro é detentor de todas aquelas características inerentes ao gênero: competência visual, futilidade estrutural e inconsequência por parte dos personagens. Ou seja, o resultado não poderia ser mais satisfatório.
E para que o proveito seja por completo, recomendo que o espectador se focalize somente na identificação com os personagens (que é certa), na diversão (também garantida) e mais nada.
Acreditem: quem quiser assistir “Zumbilândia”, não irá se arrepender.


21 janeiro 2010

Filme "AUTÓPSIA DE UM CRIME"

Mesmo sem muita expressão, o lançamento do filme “Autópsia de um crime”, ainda assim, deu o que falar. E foi por esta razão que resolvi assistir o filme.

A estória apresenta Ted Gray (Milo Ventimiglia, da série “Heroes”), um jovem médico que acabou de concluir a sua licenciatura entre os melhores da turma. Como consequência disto, ele se insere entre um dos mais prestigiosos programas de Patologia do país.
Logo, ele é convidado pelos jovens patologistas internos a se integrar ao grupo. E aos poucos, o comportamento duvidoso dos tais médicos, deixa transparecer certo mistério.
Por esta razão, Ted começa a sondar os colegas, descobrindo assim um jogo macabro realizado por eles, no qual ele se envolve voluntariamente.

O jogo pode ser descrito da seguinte forma: rotativamente, um dos médicos legista fica incumbido de trazer um novo corpo à mesa. Depois de feito, sem deixar evidências, todos se reúnem secretamente no hospital para realizar a autópsia no corpo, buscando identificar como o responsável praticou o homicídio.
Ganha a aposta àquele que conseguir cometer o crime com maior dificuldade na determinação da causa de morte, de forma que nem o melhor patologista consiga desvendar.

Continuando... Por esta premissa desenvolve-se uma trama fria, que incomoda em muitos momentos, principalmente pelas atitudes perversas tomadas pelos dúbios personagens.
O elenco, bem escalado, dá vida a personagens com personalidades igualmente doentias e calculistas, que não demonstram qualquer tipo de ética, pudor ou respeito com relação aos corpos em que trabalham. Podendo incitar aí uma inquietante curiosidade no público em saber se realmente existe casos assim.

No entanto, o desconhecido e ousado diretor Marc Schoelermann, mesmo tentando retratar os fatos de forma verossímil, conseguindo até extrair do elenco atuações seguras e naturais, traz uma superficial construção narrativa à trama, bem como o desenvolvimento.
A injustificável filosofia de vida dos subversivos médicos é transmitida sem muita lógica, deixando o filme vazio. Talvez, por esta razão, a produção é desnecessariamente recheada de apelativas cenas de sexo e violência.

O roteiro escrito pela dupla Mark Neveldine e Brian Taylor – os mesmos responsáveis pelo filme de ação “Adrenalina” –, peca pelo excesso, soando em alguns momentos exagerado, esquemático e até fetichista.
Outro ponto negativo a ser conferido no longa é em relação à fotografia. Demasiadamente escura e sem qualidade, a mesma passa a idéia de filme amador. Enquanto a trilha sonora, igualmente lamentável, é confusa e irritante.

Agora, levando em consideração a novidade do tema e o seu imprevisível desfecho, pode-se dizer que o filme alcança uma superioridade em relação às bombas do terror “série B” lançadas ultimamente.
Portanto, “Autópsia de um crime” pode ser considerado um entretenimento mediano, ainda que manifeste a sua única e deliberada pretensão em chocar quem o assiste.


Filme "A MULHER INVISÍVEL"

Eu sempre tive receio de assistir películas brasileiras. Eu assisto, mas quase sempre não me agradam. Nem mesmo os grandes sucessos como "Carandiru", "Cidade de Deus" ou o superestimado "Central do Brasil".

Com certeza, são filmes que possuem certas qualidades, mas somente em compartimentos, dificilmente como um todo.
À princípio parece ser uma visão preconceituosa, mas a verdade é que me incomoda ver filmes tão crus, desperdiçando alguns bons atores.
Muitos soam como denotação de pobreza, sem preocupar-se com a mediocridade. A desculpa está sempre no baixo orçamento, nos parcos patrocínios... tudo bem, isso explica, mas não justifica.
Bons roteiros dependem mais de talento do que de qualquer outra coisa; o dinheiro é só o recurso que irá concretizar a idéia impressa.
Os filmes independentes e pecuniariamente inferiores já provaram ter muito mais consistência do que as superproduções descerebradas de Hollywood - "Transformers” se diga de passagem.
Então, só resta concluir que além da falta de dinheiro, falta aptidão cinematográfica em nosso país?
O elogiável "A casa de Alice", e o simpático "O auto da compadecida", ainda não me deixam generalizar, porém, a divisão que há entre a afirmação e a especulação é muito tênue.

Bom, voltando-se ao filme em específico, Cláudio Torres, o responsável pela elaboração do roteiro e da direção, entrega sua terceira obra intitulada como "A mulher invisível", esta comédia brasileira de caráter romântico.
Qualquer um a essa altura do campeonato não precisa ser cinéfilo para afirmar que as comédias românticas seguem uma espécie de raciocínio padrão para sua realização. Mudam-se os temas, enquanto o perfil dos personagens, assim como o desenvolvimento, e o desfecho das estórias, são invariavelmente os mesmos.
No Brasil não é muito diferente, a não ser por um considerável detalhe: a falta sofisticação.

Nesta projeção, o roteiro, nada original, nos apresenta o protagonista Pedro se desiludindo com sua mulher que, logo de início, confessa não aguentá-lo mais por sentir-se "invisível" em sua vida iludívelmente perfeita, e assim, o abandona em uma profunda depressão.
Após esse ocorrido, ele, inconscientemente, cria a imagem de uma mulher escultural chamada Amanda, totalmente adequada às suas fantasias masculinas: que entende e se interessa por esportes; que está sempre linda e disposta a fazer sexo; que perambula pela casa com lingeries provocantes; que não se incomoda em ser traída; que não discute a relação, e por aí vai.
Obviamente, ele não tem noção de que a tal beldade seja obra de sua imaginação.
Já dá pra imaginar que agora só resta contemplar as diversas situações atípicas e constrangedoras, pelas quais, Pedro irá passar.

A estória, a princípio, já se mostra requentada, com pontos que se apresentam evidentes desde o prólogo do filme.
Tudo é muito previsível, e por vezes caricato, mas graças às cenas de humor gratuitas é que "A mulher invisível" não é uma verdadeira perca de tempo.
Pelo contrário, é bem mais engraçado que muitas pretensiosas comédias ianques. Embora, isso não seja razão suficiente para salvar o filme da insignificância.

Selton Mello, ao interpretar o personagem central, oscila entre o razoável e o péssimo. Mesmo ele tendo oferecido atuações esplêndidas em novelas e em alguns filmes; mesmo sendo ele super requisitado em nosso cinema; ainda assim, fiquei com uma péssima impressão dele nesse longa. Ele não mostrou em nenhum momento seu notório potencial.
Exagerado, aparentemente desconfortável, e forçado em muitas das cenas – sem contar com dispensável tom de voz alterado –, Selton causa constrangimento em boa parte do tempo.
Só não diria que ele está canastrão no papel, porque esse título é de Luana Piovani, como a tal mulher invisível.
O que salva Luana é sua beleza inquestionável. Para o papel não teria ninguém fisicamente mais adequado. A coisa só desanda mesmo quando ela abre a boca. A sorte é que com ela em cena, principalmente seminua, ninguém irá se concentrar em sua representação.

Como elenco secundário, temos Vladmir Brichta (está bem, mas seu personagem é irritante); a simpática e não tão conhecida Maria Manoella; e o que há de melhor no filme, a irmã do diretor, Fernanda Torres ("Os normais"), que possui as melhores tiradas e rouba todas as cenas em que aparece. Pena ter sido tão mínima sua participação.

Agora, o que está sendo novidade nas comédias românticas americanas, como exemplo tem "A verdade nua e crua", é o linguajar chulo, acompanhado de leves palavrões.
Em produções brasileiras isso não é novidade – e sim, uma característica –, mas os diálogos de “A garota invisível”, por já serem superficiais, ficam ainda mais fúteis com o excesso de expressões vulgares do tipo "vou dar pra ele" ou "não tô comendo ninguém".
Não baixam o nível por completo, mas é aí que entra a "falta de sofisticação" citada anteriormente.

Entre outros defeitos, temos a edição que deixa a desejar; a fraca e deslocada estrutura narrativa; a contradizente trilha sonora (de muito mau gosto, por sinal); o desfecho meloso de sempre; e por fim, a artificialidade das situações: destaque para as cenas em que Selton se relaciona sexualmente com várias mulheres para esquecer o ocorrido com a esposa logo no intróito da projeção, com direito a uma pontinha bizarra de Karina Bacchi. E as tomadas de Vladmir Brichta fingindo cair (ou realmente caindo), tentando conquistar a personagem de Maria Manoella. Não tinham por mais em quê serem piores.

E pra não parecer injusto, reafirmo que o que não transforma "A mulher invisível" em um fracasso total, são as situações absurdas vivenciadas por Pedro.
Somente nesses momentos, que são bem engraçados, Selton Mello oferece algo mais convincente, afinal, timming cômico ele tem.
Pra mim, a cena que vale o filme é a do surto de Pedro em uma cerimônia com a presença de seu chefe e do governador.

Enfim, longe de ser um elogio (está mais para uma conformação), dentre os trabalhos de Cláudio Torres – "A mulher do meu amigo" e "Redentor" –, este é, com certeza, o mais apreciável.
Só posso dizer que, como espectador, continuarei a ser exigente no tocante à qualidade do roteiro de nossos filmes, contudo, estarei um pouco mais esperançoso por ver alguns avanços no cinema nacional – o recente e notável “Divã” estrelado por Lilian Cabral, é um exemplo.


Filme "JOGANDO COM PRAZER"

Em seu início de carreira, Ashton Kutcher ao fazer parte do psicodélico e engraçadíssimo seriado “That 70´s Show”, uma sitcom com um “Q” de “Friends”, na qual ele co-estrelava e eu sequencialmente acompanhava, surpreendeu com seu carisma. Ali, ele conseguiu provar seu timming junto à comicidade, fazendo bem seu personagem e por vezes roubando a cena. Por este motivo, eu não entendo como alguém que iniciou a carreira de forma tão promitente, inclusive, tomando a ousada atitude de se distanciar da série que o lançou no mercado para tentar a sorte em Hollywood, hoje simplesmente não consegue oferecer nada além de um suposto rosto bonito.
E por mais versátil que ele tente aparentar, no fim, seu esforço apresenta sempre a mesma característica: a dubiedade.
Todavia, especificamente neste caso, não só Kutcher, mais também seu novo filme “Jogando com prazer”, estão igualmente sofríveis.

O diretor de “Jogando com prazer”, David Mackenzie, não é nenhum profissional de renome, apesar de ter feito dois bons trabalhos a meu ver: “Pecados ardentes” com Ewan Mc Gregor e “Olhar de desejo” com Jamie Bell. Contudo, o diretor inglês desta vez se supera na falta de objetivo. A estória do filme é fraca e desinteressante; as atuações, por sua vez, aborrecem com tanta irregularidade; e a gratuita denotação sexual das cenas constrange.

Na estória, Nikki (Ashton Kutcher), um típico gigolô que namora Samantha (Anne Heche), se sente privilegiado por suas tantas conquistas amorosas e financeiras. Isso até conhecer Heather (Margarita Levieva), uma garçonete do tipo que se enquadra no perfil de “mulher dos sonhos”, fazendo- o perceber o quanto ele não é realizado no amor. No entanto, esta não pode o corresponder romanticamente falando.

Não tendo muito o que falar deste filme, exatamente por ele ser incomodamente raso, o mesmo é só isso: uma razoável e avulsa película que não progride.
E como já dito, outro ponto de “Jogando com prazer” que vem causando polêmica, além do fato de sua estória não atingir uma sintonia, e assim, se estagnar em muitos momentos, é a sua deriva em cenas sexualmente tórridas e desconcertantes – sem querer passar a idéia de falso moralismo.

Voltando-se novamente ao desempenho do protagonista, eu nem sequer consigo alegar o que é pior: presenciar sua tênue interpretação, ou assistir uma atriz mediana e desenxabida como Anne Heche desbancá-lo.
E mesmo ele tornando claro para o espectador que o seu forte não é o drama, ainda assim, o mesmo insiste no gênero, como por exemplo, no filme “Por amor”, também recente, em que sua presença é então suplantada pelo talento da veterana Michelle Pfeiffer.

Agora, comparando-o a Meg Ryan quando esta, cometeu o crasso erro de estrelar o desnudo longa “Em carne viva” em 2003, este mesmo erro poderia ser reportado a Ashton Kutcher, devido a ele se envolver em um projeto similarmente fútil e expositivo como “Jogando com prazer”.
Afinal, ambos em assim o fazerem, desvirtuaram suas empáticas imagens, para se infiltrarem em produções contextualmente pobres e excessivamente erotizadas. Embora, é claro que, a repercussão negativa com relação à figura de Ashton com este filme não se equipara as mesmas proporções que teve a de Meg Ryan.
Em primeiro lugar, ela é mulher e ainda vivemos em uma sociedade latentemente machista. E em segundo lugar, vamos combinar que Ashton, mesmo sendo um ator, digamos, solicitado, este ainda não conquistou o título de “Queridinho da América”. Sendo assim, ele não perdeu muito, a não ser a chance de entregar ao público, pra variar, uma boa representação.

Então, se alguém pretende prestigiar algum trabalho de Kutcher, escolha filmes como “Jogo de amor em Las Vegas” ou “A filha do chefe”, que são clichês, mas garantem a diversão e constata a habilidade dele para com o humor; habilidade esta que parecer se restringir a esse gênero.
Sem mais embargos, concluo que o filme agradou a poucos (incluo-me nessa), alvoroçou os mais pudicos e não transmitiu mensagem alguma, portanto, não o recomendo.


19 janeiro 2010

Filme "VÍRUS"


Antes de qualquer observação em relação a este filme, é preciso definir uma questão: “Vírus”, desde o seu prólogo, já apresenta altos sinais de dramaticidade que vão se acentuando no decorrer da fita, portanto, não se enganem com o cartaz ou o trailer do mesmo: não se trata de mais um terror sobre a propagação de um vírus mortífero, e sim, um drama.
A estória, como sugere o título, apresenta uma espécie desconhecida de vírus sendo o mesmo responsável por dizimar toda a população, restando assim apenas um irrisório número de sobreviventes, entre esles dois irmãos, a namorada de um deles e uma amiga de outro.

Em busca de um local seguro, tendo como referência uma casa de praia, na qual os irmãos passaram grande parte da adolescência, os quatro, de carro, encaminham-se rumo a este nicho, tendo como sua maior proteção no percurso apropriados litros de desinfetantes.
Não é necessário citar que o pano de fundo para esta aventura nada tem de original: pandemia global; extinção humana; clima apocalíptico; nada que já não tenhamos visto e sob diversas retratações. Mas é preciso frisar que em “Vírus” a abordagem alcançou certo primor. O motivo se dá por todo o desgaste do tema ser contornado pela intensificação dos conflitos pessoais dos personagens em detrimento à violência gratuita inerente do gênero.


Outro ponto interessante se dá pelas características sobrenaturais inexistentes aqui. O roteiro tenta (e consegue) seguir por uma linha bastante crível, abdicando-se de qualquer argumento que pudesse inserir os aborrecidos zumbis sedentos por carne humana. O clima até sugere a idéia, mas não passa de uma mera e proposital insinuação. Um tipo de “pegadinha” com àqueles que estavam à espera de mais um saturado filme de mortos-vivos.

Bom, a narrativa desta produção dá sequencia à intensa jornada dos quatro jovens em busca do supracitado local desinfetado e seguro. E por assim ser, seu argumento, ligeiramente considerável, aborda sociologicamente toda a tensão do momento.
As reações são subjetivas, mas todas refletem o pânico entre eles, seja reprimido ou explícito, diante dos caóticos e desérticos lugares por onde passam – méritos para a eficaz fotografia. E nada do que eles presenciam contribui para que a esperança na sobrevivência seja alimentada, inda assim, tentando não serem confrontados à insanidade, optam em conjunto pelo otimismo.

É claro que, devido à ação aniquiladora e melindrosa do vírus, por sua fácil transmissão no ar, os jovens são forçados a usar máscaras o tempo todo (auto-personalizadas até) e a esterilizarem tudo o que tocam. Por tal motivo, qualquer contato que seja com alguém desconhecido é reconhecido como perigo letal.
E assim, a trama se segue explorando seus personagens que, visivelmente vão se alterando no tocante ao temperamento, dando vazão à violência, ao egoísmo e a intolerância contra eles mesmos.
O roteiro não se aprofunda nas questões psicológicas, mas também está longe de ser uma representação superficial.

Voltando-se agora ao elenco, temos Chris Pine ("Star Trek"), dos atores aqui o mais promissor, não fazendo feio com sua segura atuação; já Piper Perabo ("Show bar"), sempre sensível, consegue se manter precisa e marcante em sua participação. Os outros não tem nomes expressivos, mas tiveram um desempenho razoável.
As regras de sobrevivência, do tipo que havia em “Zumbilândia” – é claro que sem o apelo cômico da situação – estão presentes aqui, mas sem a mesma importância. Elas somente elevam o nível de paranóia entre o quarteto.
Aliás, falando em "Zumbilândia" parece que estamos vivenciando a era dos filmes zumbis alternativos: comédia, agora drama... interessante.

Em relação ao ponto mais marcante do filme que se dá por sua verossimilhança, considerado sua maior qualidade é também seu maior defeito. O desenvolvimento do filme tem um decorrer progressivo, porém, periga por diversas vezes cair na monotonia. Culpa da direção inexperiente que, ao optar por simplesmente focalizar o comportamento humano, se esquece de ousar um pouco. Afinal, o tema está sendo mostrado sob outra roupagem (Leia-se sem zumbis), então era esperado que outros elementos substituísse a ausência de um vilão visível.

Enfim, sem efeitos especiais mirabolantes, ou desfecho repleto de susto e ação, o melhor mesmo do filme é o seu realismo, concluindo então que “Vírus” não é um exemplo espetacular da sétima arte, mas é minimamente recomendável e interessante.


Filme "ANTICRISTO"

Graças a algumas de suas analíticas obras, enfocando, claro, o magnífico “Dogville”, eu considerei por algum tempo o cineasta Lars Von Triers como sendo alguém bastante capaz e introspectivo, não levando em conta, é claro, alguns dos poucos filmes inúteis dirigidos por ele.
Porém, por intermédio de seu último longa intitulado como “Anticristo”, ironicamente identificado como seu trabalho mais denso e filosófico até então, minha admiração pelo mesmo ficou meio abalada.
Muitas das vezes, estes profissionais da arte, visados por sua complexidade, não são compreendidos ao certo e acabam por receberem do público a indiferença, e assim, dos especialistas da área às vociferantes críticas. E quase sempre pelos mesmos motivos: a difícil assimilação da real intenção do roteiro.
Normalmente, a culpa fica por conta da linguagem excessivamente erudita e conscientemente evasiva, ou pelos excessos de metáforas e analogias em sua retratação. E, ao que parece, esse é o perfil do comentadíssimo “Anticisto” – merecedor de todo repúdio.
Porém, Lars Von Triers conseguiu ser plenamente entendido e mesmo que dividindo opiniões, bastante elogiado. Mas, nem por isso, este filme deixa de ser um trabalho bastante penoso de se acompanhar.

Em primeiro lugar: o filme se excede em suas alusões escriturísticas por não se limitar às entrelinhas, o que torna sua essência bastante cínica e polêmica. Não que isso seja necessariamente reprovável, mas sua deliberação, sim.
Como dito, todas as intenções do diretor neste filme são propositais, esperando conscientemente causar furor, aversão, desconforto, tudo na mais radical das acepções.
A idéia principal, por mais ilusória e metafórica que seja, é vendida como sendo totalmente absoluta, mesmo liberando espaço para outras interpretações, porque, no fim, levam ao mesmo objetivo - se é que existe um.
Parece que o autor quer somente ser visto e ouvido, não importando o que os outros pensem desde que estes absorvam, inquestionavelmente, tudo que for mostrado ali e formem assim opiniões sob a ótica dele.

Quanto à estória, esta relata, em partes, a insanidade e a impotência do ser humano diante de uma situação dolorosa – a perda de um filho.
O roteiro opta por destrinçar o comportamento humano, para simplesmente ratificar o quão irracional e contraditório ele é.
Os únicos personagens aqui, um homem e uma mulher, é o casal da trama, interpretados magistralmente por Charlotte Gainsbourg (premiada pelo papel) e Willem Dafoe (atuação também perfeita).

O início do filme já é o suficiente para chocar: o casal aparece fazendo sexo, de forma bem intensa (com direito a um close interno de penetração vaginal), até que, nesse exato momento, o filho destes acaba caindo de uma janela, resultando em um acidente obituário, sendo tudo presenciado pela mulher que, por estar aparentemente extasiada pelo prazer da relação sexual, manteve-se inerte diante da cena – a razão real de sua atitude vem gradativamente no decorrer do filme.
Ela, sucumbindo em um estado sufocante de depressão pelo ocorrido, conta com a ajuda do marido, este psicólogo, que decide fazer algo para livrá-la de seu tormento pessoal, quando, simultaneamente, o mesmo tenta superar a tragédia.
Então, ambos se retiram para uma casa no campo, denominada sugestivamente de Éden, buscando refúgio. O que eles não sabem é que ali todo o drama dos dois se travestirá do mais puro terror.

O maior mérito de Lars com esta estranha experiência chamada “Anticristo” é a sua capacidade de persuadir o espectador com seus personagens carregados, aliciando-os a adentrar em meio à sua loucura.Tudo é levado de forma bem progressiva em que o enredo flui sem impedimentos, devido ao belo trabalho das câmeras otimamente posicionadas, privilegiando cada detalhe de um dos mais belos trabalhos que já presenciei no que diz respeito à fotografia.
Sua conclusão literalmente torturante cria uma sensação antagônica entre o principio e o fim da estória. A primeira cena é totalmente estética, com direito a belas filmagens, ótima trilha de fundo e um visual rico em preto e branco. Por outro lado, o último ato do filme é totalmente responsável por sentimentos como repulsa, indignação, tensão e, no meu caso, desapontamento.

Não que eu esperasse um filme raso, com desfecho óbvio, tampouco de resoluções dóceis, afinal, se tratava da mais nova e pretensiosa obra do pedante Lars Von Triers, mas a questão é que não é um filme de fácil digestão.
O sentimento negativo que o filme insere na mente permanece durante algum tempo, não só pela nítida misoginia, ou as inconcebíveis mutilações e todo o clima horrivelmente claustrofóbico, mas por ser um trabalho, no fim, depressivo, assim como o próprio autor que, se encontrava nessa circunstância quando elaborou o filme.

Sem mais delongas, “Anticristo”, a meu ver, não passou de um mero abuso de argumentos, por vezes, incoerentes e sem propósito, descambando-se em um gratuito e generalizado exagero visual, impulsionados por uma mente, naquele momento, debilitada.
Se alguém quiser assistir a degradação humana pela visão de um melancólico em potencial, este filme é um prato cheio. senão, assista-o pelo aspecto técnico que, por sinal, está excelente. Do contrário, adianto: é um mero exemplar duvidoso e intransigente do cinema cult.


11 janeiro 2010

Filme "O NEVOEIRO"

Muitas das obras de Stephen King que sofreram adaptações cinematográficas foram notoriamente ignoradas pela mídia, devido a falta de êxito junto ao público. Alguns exemplos frustrados podem ser citados aqui, como: o enganoso e sem nexo “O apanhador de sonhos”; o entediante e interminável “Rose Red - A casa adormecida” (eficaz também em nos fazer adormecer); O inconsistente “1408”, e o insosso “Janela secreta”. Portanto, graças a esses desastrosos títulos, eu criei certa resistência às películas baseadas nos escritos de King.
É certo que não posso ser radical, esquecendo os seus sucessos, inda assim, penso duas vezes antes de prestigiar seus trabalhos.

Mas a verdade é que, como nem tudo é absoluto no mundo do cinema, eu me surpreendi com uma de suas recentes adaptações, dirigida pelo também roteirista Frank Darabont, denominada como “O nevoeiro”.
O diretor Darabont parece ter se tornado um especialista em dar vida às obras de Stephen King. Em suas três experiências – “Um sonho de liberdade”, “À espera de um milagre” e “O nevoeiro” –, ele, unanimemente, obteve consideráveis acertos. E o mais curioso com relação aos três filmes é que a sensação de “confinamento” está relacionada em todos eles. O que nos mostra a uniformidade na forma de o diretor francês trabalhar.

Bom, o longa “O nevoeiro”, estrelado pelo “justiceiro” Thomas Jane (atualmete estrela do exótico seriado "Hung"), foi realmente pra mim uma grande surpresa. Eu não alimentava qualquer expectativa em relação a esta produção. Eu até me lembro de uma versão antiga de título homônimo de John Carpenter, em que consistia-se num terror habitado por almas vingativas e mortíferas que agiam contra uma cidade portuária, ocultos em meio a um tipo de névoa.
A princípio eu pensei que “O nevoeiro” de Darabont fosse um remake deste clássico do terror, tipo, uma espécie de retratação à horrorosa refilmagem de 2005, “A névoa”, mas não é. Não existe ligação entre os dois e o produto de Darabont é simplesmente muito melhor.

Em primeiro lugar, “O nevoeiro” foi divulgado como sendo um filme de terror... não que seja enganosa tal informação, mas todo o, digamos, “terror” da estória é apenas um pretexto para se aprofundar em um tema muito mais denso: o comportamento humano perante o desconhecido.
A estória do filme se passa, obviamente, em uma cidade pacata dos EUA, enfocando o personagem David Drayton (Thomas Jane), ilustrador de cartazes de filmes de Hollywood, que mora com a mulher e um filho pequeno.
Após uma forte tempestade, resultando em alguns estragos consideráveis em sua casa, ele, o filho e o vizinho, também prejudicado pelo temporal, vão até um supermercado próximo atrás de materiais para o conserto. E a partir daí eles ficam enclausurados no tal supermercado, com mais um grupo de pessoas que também estavam à procura de suprimentos, devido a um bando de criaturas grotescas e sanguinárias, envolvidas por uma espécie de névoa, que está ameaçando-os mortalmente do lado de fora.

Inicialmente, parece ser uma estória comum, com os aspectos peculiares de Stephen King, no entanto, vai além disso. Os vilões são sugeridos no primeiro ato do filme (nenhum é mostrado por inteiro), e Darabont, sem rodeios, se empenha em mostrar quão diversas são as reações e os conceitos de cada um dos indivíduos trancafiado ali.
Alguns beiram o desespero; outros, de forma extrema, se apegam a fé e arrastam outros com ele; outros se mantêm inertes; enquanto outros, com espírito de liderança, obstinam-se em escapar, não importando como. E sob tal variedade de sentimentos, o filme se segue linearmente tenso e limítrofe, assustando mais pela estupidez dos seres humanos, do que pelos próprios monstros. Todavia, não se podem menosprezar as criaturas, são elas realmente assustadoras, ainda mais por não sabermos ao certo o que elas são e de onde vem.
De qualquer modo, a sensação de agonia e ansiedade toma conta do evento. Ponto positivo para a trama.
O melhor de tudo é que todos os recursos utilizados aqui são condizentes com o que a estória que passar. Das tantas qualificações, temos os diálogos perfeitos e bem alinhados; o visual assustador; os efeitos muito bem produzidos; o clima inquietante e a precisa trilha sonora.

Outra questão a favor do longa são as atuações bem acima da média. Destaque para a indômita religiosa Sra. Carmody, interpretada por Marcia Gay Harden, que rouba a cena, ainda que sua fanática personagem tenha um comportamento manipulado, sob a idéia errônea de que todo religioso é irracional e com tendência homicida. Fora isso, seu papel é esplêndido e quase ofusca o elenco por inteiro. Pode-se dizer que, ela é o ponto chave para todos os desvarios causados entre os presentes no local, responsável também por formar dois grupos antagônicos, por a mesma acreditar ser a “enviada de Deus” para aquela situação apocalíptica, em que todos devem ser incitados por ela ao arrependimento – as figuras monstruosas segundo sua visão, representam o castigo de Deus como expurgo aos pecados dos habitantes da cidade.

Agora, o ápice do filme se dá mesmo em sua resolução altamente amarga e, digamos, pungente que, possivelmente, não agradará aos massivos espectadores. Estes acostumados a soluções fáceis, podem se decepcionar, contudo, eu adianto que não poderia ser melhor, graças a ousadia, inovação e imprevisibilidade da direção em não se deter pelo desfecho original do livro. Atitude bastante corajosa.
Até Thomas Jane, elogiável aqui, se superou no papel por normalmente sua interpretação soar um tanto inane.
A derrapada que o mesmo dá no último ato, com sua tépida reação diante do áspero ocorrido (que não posso sob hipótese alguma contar) consegue ser relevada, visto que, seu esforço durante todo o longa foi notável.

O argumento para a razão do nevoeiro, ainda que especulativo, foi o único ponto irregular da estória, no entanto, essa lacuna não desmerece o filme que, sinceramente, me divertiu e me surpreendeu.
Enfim, esta concisa estória merece ser vista e avaliada sob a visão pessoal de cada um. Com certeza, várias lições podem ser tiradas por intermédio deste roteiro muito bem dirigido e mais do que recomendado.